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segunda-feira, 9 de maio de 2011
Falando em retrocessos e preconceitos...
sábado, 7 de maio de 2011
BARREIRA SUPERADA
Gostaria muito de ter tido tempo, ontem, para escrever a respeito da minha opinião sobre a nova conquista de toda a sociedade brasileira junto ao Supremo Tribunal Federal: o reconhecimento dos direitos das uniões entre homossexuais. Digo de toda a sociedade, e não somente daqueles que se beneficiarão diretamente dessa vitória, pois ela representa um avanço do Brasil rumo à democracia e ao respeito aos direitos de qualquer ser humano independente de sua cor, raça, idade, classe social ou orientações religiosa, sexual e política. Felizmente, de encontro às minhas expectativas, o Diário Catarinense trouxe em sua edição de hoje um muito bem escrito artigo sobre o assunto. Peço licença aos leitores (e ao autor do texto) para tomar de empréstimo as palavras escritas na sessão “editoriais” desse jornal.
"A decisão do Supremo, de reconhecer os direitos das uniões homoafetivas, representa um avanço não só para as pessoas diretamente beneficiadas. Ao deliberar, por 10 votos a zero, que o conceito de união e de família não pode se restringir a casais heterossexuais, o STF apenas reconhece uma realidade e contribui para a eliminação de discriminações e para a afirmação do direito à diversidade. A sessão histórica do Supremo corrige, com a formalização de norma jurídica, o descompasso das leis em relação à permanente evolução de modos de convivência, de costumes e até mesmo de referências morais. Como enfatizou o ministro Ricardo Lewandowski, uniões de pessoas do mesmo sexo devem ser reconhecidas pelo direito, porque dos fatos é que nasce esse direito.
Os direitos dos casais homoafetivos brasileiros vinham sendo reivindicados, nas últimas décadas, enquanto as legislações da maioria dos países evoluíam e acompanhavam a mudança de perfil do que se consagrou como família tradicional. Com o reconhecimento unânime do Supremo, são vitoriosos os que enfrentaram barreiras culturais, obstáculos legais e, em boa medida, até mesmo a intolerância, para que o Judiciário assegurasse aos homossexuais a igualdade assegurada pela Constituição.
O Brasil retardatário, no sentido de reconhecer esses direitos, era um país omisso. Sem ordenamento jurídico, as novas formas de relação se firmavam, em muitos casos, quase na clandestinidade, como se afrontassem modelos estáticos de família, de afeto e de busca da felicidade. Os benefícios agora assegurados aos homossexuais em nada ferem direitos e tampouco representam ofensa a valores religiosos ou culturais. Pelo contrário, reafirma-se, com a decisão do Supremo, o princípio constitucional de que ninguém deve ser discriminado por suas orientações religiosa, política e sexual. A ministra Ellen Gracie definiu, com poder de síntese, que são finalmente reconhecidos os direitos de quem, durante muito tempo, foi humilhado e ofendido, com identidade denegada e liberdades oprimidas. Pessoas, como destacou a ministra, que não são indivíduos distantes ou anônimos, mas nossos vizinhos, nossos colegas de trabalho, nossos amigos e nossa família.
Observe-se que o ordenamento jurídico passa finalmente a contemplar as novas configurações da família contemporânea, apesar da omissão do Congresso. Câmara e Senado, provocados tantas vezes a legislar sobre o tema, deixaram de cumprir com suas atribuições, como já se repetiu em outras circunstâncias com questões relevantes. O Supremo, agora acusado por alguns setores de se apropriar de tarefas do Legislativo, foi provocado por duas ações encaminhadas à mais alta corte do país e optou por romper com o limbo jurídico, a partir da interpretação das garantias fundamentais da Constituição. No vácuo deixado pelos políticos, a Justiça ofereceu uma contribuição decisiva para que a sociedade seja mais tolerante e mais igualitária".
terça-feira, 3 de maio de 2011

De Humanos a Monstros
Por Lívia Monte.
Monstro, animal, fundamentalista, louco, estes foram os adjetivos empregados para falar sobre Welligton de Oliveira que no dia 7 de abril de 2011, entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro, deixando 12 crianças mortas.
Antes que me crucifiquem aqui, dizendo que o objetivo deste texto é defender o Monstro, gostaria de dizer que fiquei muito abalada com a tragédia e que não, não é minha intenção defender ninguém e sim provar que nós somos tão monstros quanto ele.
Talvez por isso o odiemos tanto, pois ele é a personificação de tudo que há de ruim em nós e isso é tão doloroso que foi preciso segregá-lo, diminuí-lo, para que assim possamos nos desviar, fingir e não assumir nossa parcela de culpa neste episódio.
Agora um questionamento para os que ainda não se convenceram de que são monstros:
-Qual a diferença entre a chacina da Candelária e a chacina de Realengo?
Permitam-me responder parafraseando as idéias da filósofa Judith Butler: há corpos que importam e outros que simplesmente não importam. Monstruoso, não é mesmo?
Claro que esse jovem de Realengo não foi nada original, quantas vezes vimos esses casos no país do Tio Sam? Um dos mais famosos aconteceu no dia 20 de abril de 1999 em que dois garotos abriram fogo contra professores e alunos na escola Columbine, localizada no estado do Colorado.
Assim como no caso brasileiro, no qual os culpados foram apontados como a loucura de Welligton e a falta de segurança nas escolas, os Estados Unidos também tinham os seus culpados para Columbine. Eram eles: os desenhos animados violentos e astro de rock Marilyn Manson.
No longa metragem Tiros em Columbine, documentário produzido pelo polêmico Michael Moore e inspirado nesse episódio de 1999, o réu Marilyn Manson ao ser perguntado sobre o que diria para os garotos de Columbine e a comunidade, respondeu:
-“Eu não diria uma única palavra para eles, eu ouviria o que eles têm a dizer, pois foi isso o que ninguém fez.”
Finalmente a personificação do medo, Marilyn Manson, abriu os olhos dos outros monstros para a verdadeira situação de Columbine e Realengo, que representam nada mais que a decorrência de uma sociedade monstruosa marcada pela segregação e a não escuta, onde os tiros são a única forma de se fazer ouvir.
Rubem Alves certa vez escreveu: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular.
Então o que faremos? Eliminaremos os desenhos animados infantis? Prenderemos os roqueiros de aspecto diferente? Segregaremos a loucura decorrente de uma sociedade louca? Colocaremos detectores de metais na portas de nossas escolas?
Eu não sei quanto a vocês, quanto a mim Rubem Alves acabou de ganhar sua primeira aluna para o curso de escutatória.
Disponível em: http://desacato.info/2011/04/de-humanos-a-monstros/
sábado, 9 de abril de 2011
“Algumas” reflexões possíveis diante do massacre de crianças em uma escola carioca
Em primeiro lugar: coloco-me a postos para críticas e outras reflexões. Pus “algumas” entre aspas para justamente pontuar que muitas outras idéias poderiam ser escritas aqui, mas estas foram as que me brotaram ao ler sobre a notícia principal da mídia brasileira nos últimos três dias. Em segundo lugar: não tenho a posse de verdade alguma, apenas divido com outros o que me fez refletir. Quando mostro que me preocupa a visão dos fatos em termos de vítimas e culpados, simplesmente proponho um outro olhar possível sobre eles; não quero mesmo nomear ninguém. Conheço a lei de nosso país, coloco-me no lugar de extrema dor das famílias que perderam suas crianças e reconheço um culpado, sim. Mesmo assim, proponho algumas reflexões.
A responsabilidade social pela saúde mental: a sociedade poderia aproveitar esse momento para refletir sobre qual é o seu papel diante das inúmeras pessoas que sofrem com distúrbios mentais em nosso país. As famílias, as comunidades, as escolas, as empresas, o poder público, poderiam olhar melhor para essa pessoa que se apresenta como um diferente, um estranho, um “esquisito” e se perguntarem o que poderiam fazer para ajudá-lo, incluí-lo socialmente, dar sentido à sua vida, possibilitar-lhe o convívio social, o afeto, a dignidade. Cada vez é maior o número de pessoas que sofrem com algum distúrbio de ordem psíquica em nosso país e em todo o mundo. E o ritmo de nossas vidas na contemporaneidade, as exigências a que estamos todos submetidos, as pressões do cotidiano que sofremos desde a infância até a velhice, a diminuição do contato e do afeto interpessoal em detrimento do medo, da violência ou mesmo de interesses outros, só fazem aumentar esse contingente. É papel político da medicina e da psicologia, mas também de toda a sociedade construir um novo olhar, ou um olhar de fato, para o problema que se apresenta mas tantas vezes é colocado de lado: as pessoas precisam de ajuda, as pessoas precisam de afeto. Precisam de respeito às suas singularidades, precisam de apoio, precisam ser vistas, ouvidas e sentidas.
A responsabilidade da escola por propagar a paz e o respeito mútuo entre seus alunos: não é a primeira vez que uma suposta vítima de bulliyng nas escolas opta por uma solução trágica para seu sofrimento, que se propaga anos e anos após já ter concluído os estudos e saído da instituição onde os realizou. Quem não sofre o preconceito, a injustiça, a solidão e a profunda tristeza que causam no sujeito essa prática discriminatória, não imagina o quanto ela é capaz de se propagar e persistir no tempo, no corpo, nas atitudes, nos pensamentos e principalmente no afeto daquele que a sofreu, bem como em toda a sua história a partir dali. É papel da escola e da família a educação para o respeito, a cidadania, a paz e o entendimento entre as pessoas. É também papel de ambas educar para o afeto, para a amizade, a compreensão, a comunicação. Parece tolo dizer isso, mas esses valores se perderam diante da exigência de ensinar nossos alunos e filhos a “vencerem”. Do que adianta sermos vencedores se diante de situações como essas não achamos solução ou explicação que nos conforte? É preciso reformularmos nossos conceitos, nossos valores.
A responsabilidade das escolas pela segurança dos seus alunos e professores: diante de uma fatalidade como a que aconteceu na última quinta-feira no Rio, me pergunto se haveria alguma chance de aquela escola ter evitado a tragédia da qual foi vítima. Ter câmeras na entrada, guardas, detectores de metais, talvez? Mas também me parece, por outro lado, que o sujeito realizaria seu plano de uma forma ou outra, talvez. Pergunto-me, também, quem são todas as vítimas desse momento: as crianças mortas, as feridas, as que presenciaram a situação. Os professores, toda a escola. As famílias, a comunidade. O próprio atirador, uma vítima da vida, dos outros, da sociedade, da mídia e de si mesmo, bem provavelmente. Sua família – seus irmãos adotivos, que serão lembrados e rechaçados por um bom tempo. Todos são vítimas, todos são responsáveis também. Há e não há culpados. Parece-me que tamanha fatalidade não pode ser resumida à eleição de quem errou e de quem sofreu. É muito mais sério e complexo do que isso. Algo que se construiu individualmente (no sentido do isolamento mórbido em que se afundou Wellington para mapear seu plano), mas também social e historicamente.
A responsabilidade da família: a família terá sempre uma grande responsabilidade pela saúde mental dos “seus”. Ali, na família, muitas coisas se constroem (assim como se destroem) – como será o afeto, a relação entre irmãos, pais e filhos, o casal, filhos adotivos, enteados e enteadas, padrastos, madrastas, avós. Os valores e não-valores perpassados em cada atitude, em cada olhar, em cada palavra dita ou não dita, em cada ausência, em cada presença sufocante. É ali que muitas vezes começa o primeiro isolamento de alguém que não se sente desse mundo, ou daquele lugar, ou dessa família, ou daquela escola. É ali que pode começar o sentimento de alguém que não se sente nem de si mesmo, e que se entrega a uma seita, a um deus, a um dogma ou simplesmente a uma obsessão, ou quem sabe a um medo profundo. O papel da família, novamente, é o olhar. Em primeiro lugar. O olhar, o perceber, o sentir. Questionar, perguntar. Perceber. Pedir ajuda, quando não sabe o que fazer.
A responsabilidade da mídia: jornais, televisão, internet. O que se faz com o fato e o que isso repercute na vida das pessoas. A internet é uma fonte de tudo-o-que-se-pode-imaginar-e-não-imaginar. Ali tem tudo, para qualquer gosto ou objetivo. Não imagino o que poderia ser feito a respeito, mas vejo-a como um terreno perigoso. É também dentro da família que esse terreno pode ser cercado, restrito. É só não ligar o PC. Também é só não ligar a TV ou abrir o jornal. Mas, será possível na contemporaneidade conviver sem isso? Não estaria a mídia dando idéias a um jovem que hoje também pensa em se vingar da vida, como o fez Wellington? Mas não se trata de culpa, novamente, e sim de responsabilidade. Todos temos a responsabilidade de refletir sobre o papel da mídia, e sobre o espaço que ela deve e/ou precisa ocupar em nossas vidas, nossa mente, nossa família. A mídia e a sociedade também devem se responsabilizar por essa reflexão: qual o papel da mídia!
E, para terminar: que pena do Rio e dos cariocas... que parecem estar afundados num mar de fatalidades tristes. Nas manchetes de jornais fora do país, não há como não relacionar esse fato isolado à toda violência “de outra natureza” – se é que posso falar assim – que ali se passa. O Rio, nos últimos tempos, tem chorado muito por suas perdas. Seja pela violência, seja pela catástrofe natural da qual foi vítima recentemente, seja por esse triste massacre de crianças por um pobre sujeito isolado e doente. E novamente me pergunto, quem são as reais vítimas. E tudo isso, espero que não fique sem as devidas reflexões frente à Copa, que se aproxima. Temos que refletir sobre isso!
terça-feira, 5 de abril de 2011
Solidão crônica (ou) por opção, eis a questão ...
No dia 26 de março de 2011, sábado, no caderno Ilustrada da Folha de SP, Dráuzio Varella escreve sob o titulo “Solidão crônica”. Tece em seu texto, relações entre o isolamento social e os riscos de doenças cardiovasculares, as depressões e a incidência de infecções, demonstradas em mais de cem estudos epidemiológicos a partir dos anos 1980. Sluzki, autor sistêmico, defende a importância de redes sociais saudáveis e confiáveis para a saúde física e mental dos individuos no livro "Rede social na prática sistêmica". Voltando a Varella: “A solidão crônica interfere com a qualidade do sono, é causa de fadiga e reduz a sensação de prazer associada a atividades recreativas. Para agravar o isolamento , os já solitários tendem a reagir negativamente aos estímulos e a desenvolver impressões depreciativas a respeito das pessoas com as quais interagem [...] Estudos com irmãos gêmeos revelam que a solidão crônica não depende exclusivamente das características do meio, mas apresenta aspectos hereditários. É como se existisse um ‘ termostato genético’ para a capacidade de lidar com a solidão, ajustado em níveis diferentes em cada um de nós”. Isto explicaria segundo esta visão, a intensidade da dor sentida por cada um de nós quando estamos sós. Em 04 de abril de 2011, segunda-feira, também no caderno Ilustrada do mesmo jornal, leia-se matéria sobre um escultor polonês de quase 90 anos, cuja familia foi dizimada pelo nazismo, Frans Krajcberg, que se isola cada vez mais, há 4 décadas, na mata que ele mesmo plantou em um sitio no sul da Bahia e alega: “fugi do homem para morar na floresta”. Como seria o impacto para a saúde e bem estar de uma pessoa quando se trata de uma decisão de estar completamente sozinho, é a pergunta que emerge quando leio ambas as matérias. É possível viver sozinho, sofrendo menos, por escolha própria ... que coisas favorecem esta escolha, se é que se trata de uma escolha pelo menos em um plano consciente ... Mas não sei se precisamos ir tão longe ... vivemos em um mundo no qual a inovação tecnológica favorece freneticamente, em tese, possibilidades ilimitadas de interações sociais com a participação em inúmeras redes sociais em tempo real. Paradoxalmente, o número de pessoas que chegam até nós para falar de sua solidão e da sua dificuldade de compartilhar seus sentimentos mais íntimos, mesmo com as pessoas com quem convivem mais proximamente, é cada vez maior. Qual seria afinal a pior solidão: aquela que é compartilhada com alguém ou aquela que optamos por escolha pessoal depois de muito tentar conviver com nossos iguais ... Ficam aí algumas perguntas sem resposta ...